Ansiedade infantil: como o mindfulness pode ajudar seu filho (ou aluno) a lidar com ela no dia a dia
- Adriana Pereira

- há 8 horas
- 4 min de leitura

A ansiedade na infância deixou de ser um assunto raro nos consultórios — e os números confirmam o que muitos pais e professores já sentem na prática. Neste post, vamos olhar para dados reais sobre o crescimento da ansiedade entre crianças e apresentar técnicas de mindfulness simples, que cabem numa rotina corrida, para ajudar os pequenos a lidar com esse sentimento.
O que os dados mostram
Os números recentes sobre saúde mental infantil no Brasil são alarmantes:
Um levantamento do Ministério da Saúde mostrou que, entre 2014 e 2024, os atendimentos por ansiedade no SUS cresceram quase 2.500% entre crianças de 10 a 14 anos — saltando de 1.850 atendimentos em 2014 para mais de 24 mil em 2024. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o crescimento foi ainda maior, de cerca de 3.300% (Ministério da Saúde, via EBC e Jornal da USP, 2024/2025).
Pela primeira vez na história, os registros de ansiedade entre crianças e jovens superaram os registros entre adultos no Brasil, segundo análise da Folha de S.Paulo a partir de dados do SUS: a taxa entre crianças de 10 a 14 anos foi de 125,8 casos a cada 100 mil, contra 112,5 a cada 100 mil entre adultos acima de 20 anos (Folha de S.Paulo / Rede Nacional Primeira Infância, dados de 2023).
Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), entre 10% e 20% dos jovens brasileiros de 10 a 19 anos enfrentam algum problema de saúde mental (Opas, dados de 2024, via Instituto de Psiquiatria do HC-USP).
Na faixa de 5 a 9 anos, as internações por transtornos mentais e comportamentais tiveram o maior aumento percentual entre todas as idades no estado de São Paulo (98,3%) entre 2020 e 2025, e a ansiedade já é apontada como a principal causa de incapacidade entre crianças brasileiras, segundo dados do Global Burden of Disease (Jornal de Brasília, com o pesquisador Christian Kieling).
Especialistas citam fatores como o impacto da pandemia, o uso intenso de eletrônicos e telas, e mudanças nas formas de convívio social como parte da explicação para esse crescimento.
E o mindfulness realmente ajuda?
Sim — com evidências crescentes, ainda que a pesquisa com crianças seja mais recente do que a de adultos. Revisões sistemáticas da literatura científica brasileira apontam que intervenções baseadas em mindfulness têm impactos positivos na redução de sintomas ansiosos e no fortalecimento de mecanismos de enfrentamento em crianças, especialmente quando combinadas a outras estratégias (Revista Foco, 2025; Revista Perspectiva: Ciência & Saúde). Estudos também associam a prática a melhorias na regulação emocional e na capacidade de atenção, além de benefícios observados até mesmo em crianças com TDAH (Pepsic, 2023 e 2024).
Ou seja: mindfulness não substitui acompanhamento profissional quando a ansiedade é persistente ou intensa, mas é uma ferramenta de apoio com respaldo científico para o dia a dia.
Técnicas práticas para uma rotina agitada
1. O "escaneamento do corpo" de 1 minuto
Quando a criança estiver ansiosa (antes de uma prova, uma festa, ou dormir), peça para ela fechar os olhos e "escanear" o corpo da cabeça aos pés, notando onde sente tensão — ombros, barriga, mãos. Só perceber já ajuda a reduzir a intensidade da sensação.
2. Respiração "em quadrado"
Ensine a criança a respirar contando: inspira em 4 segundos, segura por 4, solta em 4, espera 4. Pode desenhar um quadrado no ar com o dedo enquanto respira — ajuda a visualizar e distrai da preocupação.
3. Nomear para acalmar
Peça para a criança dizer em voz alta (ou escrever) o que está sentindo: "estou com medo da prova". Nomear a emoção, sem julgá-la, é uma técnica de mindfulness validada que reduz a intensidade da resposta de ansiedade no cérebro.
4. Frasco ou copo da calma
Um pote com água e glitter: quando a ansiedade aparece, a criança balança o pote e observa o glitter assentar, enquanto respira devagar. Um recurso visual simples para os momentos de pico, seja em casa ou na sala de aula.
5. Âncora dos 5 sentidos
Pergunte: "quais 5 coisas você consegue ver agora? 4 que pode tocar? 3 que ouve? 2 que cheira? 1 que sente o gosto?". Esse exercício rápido (2 a 3 minutos) traz a criança de volta ao presente e interrompe o ciclo de pensamentos ansiosos, sendo ótimo para crises antes de provas ou apresentações.
6. Pausa mindful entre atividades
Na correria entre a escola, tarefas e atividades extras, inclua 2 minutos de silêncio e respiração consciente na transição de uma atividade para outra — por exemplo, antes de começar a lição de casa. Isso ajuda a "resetar" o sistema nervoso antes de um novo estímulo.
Como incluir isso na rotina sem virar mais uma tarefa
Pratique junto com a criança — ela aprende mais pelo exemplo do que pela instrução
Use momentos que já existem na rotina (antes de dormir, no caminho da escola) em vez de criar um horário novo
Não espere a crise para praticar: o mindfulness funciona melhor como hábito preventivo, não só como "socorro" no momento de pico
Se a ansiedade for frequente, intensa ou atrapalhar o dia a dia da criança, busque orientação de um profissional de saúde mental — o mindfulness é um complemento, não um substituto ao cuidado especializado
A ansiedade infantil é uma realidade que os números não deixam mais ignorar. Mas, com pequenas pausas conscientes inseridas na rotina, pais e professores têm em mãos uma ferramenta simples, gratuita e com respaldo científico para ajudar as crianças a atravessar esse momento com mais calma.
Fontes consultadas:
Ministério da Saúde (dados do SUS/RAPS, 2014–2024), via reportagens do Jornal da USP e EBC Rádios
Folha de S.Paulo, análise de dados do SUS (2013–2023), via Rede Nacional Primeira Infância
Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), dados de 2024, via Instituto de Psiquiatria do HC-USP
Jornal de Brasília, com dados do Global Burden of Disease e entrevista com o pesquisador Christian Kieling
Revista Foco (2025) e Revista Perspectiva: Ciência & Saúde — revisões sistemáticas sobre mindfulness e ansiedade infantil
Periódicos Eletrônicos em Psicologia (Pepsic), 2023 e 2024 — eficácia de mindfulness em funções executivas e TDAH infantil
Este post tem fins informativos e não substitui avaliação ou acompanhamento profissional de saúde mental.
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