Tutorial: como planejar uma aula de Ciências investigativa para os Anos Iniciais (com base na BNCC)
- Adriana Pereira

- há 12 minutos
- 4 min de leitura

Ciências é a disciplina da curiosidade — e nada frustra mais uma criança curiosa do que uma aula que se resume a copiar definições do quadro. A boa notícia é que a própria Base Nacional Comum Curricular aponta para o caminho oposto: uma Ciência que parte da investigação, da pergunta e da experimentação. Neste post, um passo a passo prático para montar aulas de Ciências para os Anos Iniciais (1º ao 5º ano) que colocam a criança no papel de pequena cientista, além de ideias para aplicar em diferentes momentos do ano.
Antes de começar lembre: as três unidades temáticas de ciências
Para organizar o planejamento, vale ter em mente que a BNCC estrutura o ensino de Ciências em três grandes unidades temáticas, que se repetem do 1º ao 9º ano com complexidade crescente:
Matéria e Energia — inclui também as tecnologias: materiais, transformações, fontes de energia, misturas, entre outros.
Vida e Evolução — corpo humano, seres vivos, ecossistemas, saúde e bem-estar.
Terra e Universo — fenômenos naturais, tempo, espaço, astros, clima.
Isso significa que um mesmo assunto (por exemplo, "água") pode ser revisitado em diferentes anos, cada vez com um nível de profundidade maior — então não tenha medo de repetir um tema, desde que aprofunde a investigação.
Passo a passo para montar sua aula
Passo 1 — Comece com uma pergunta, não com uma resposta
Em vez de abrir a aula explicando o conceito, lance uma pergunta desafiadora que gere curiosidade: "Por que o gelo derrete?", "Para onde vai a água da chuva depois que ela cai?", "Por que algumas coisas flutuam e outras afundam?". Deixe as crianças arriscarem hipóteses antes de qualquer explicação — mesmo que estejam "erradas". Essa etapa de levantar hipóteses é parte do próprio fazer científico.
Passo 2 — Registre as hipóteses da turma
Anote no quadro (ou em um cartaz) o que cada criança ou grupo imagina que vai acontecer. Isso cria um compromisso da turma com a investigação: elas vão querer descobrir se acertaram.
Passo 3 — Proponha a investigação prática
Sempre que possível, transforme a aula em experimento — mesmo que simples. Use materiais do dia a dia: água, sal, açúcar, copos, lupa, plantas, potinhos. O objetivo não é ter um laboratório, mas garantir que a criança observe, manuseie e experimente por conta própria.
Passo 4 — Observe e registre os resultados
Durante ou depois do experimento, peça que as crianças desenhem, escrevam ou descrevam oralmente o que observaram. Para os menores (1º e 2º ano), o desenho já é um ótimo registro científico; para os maiores, é possível introduzir tabelas simples ou pequenos textos.
Passo 5 — Volte às hipóteses e converse sobre os resultados
Retome o cartaz do início da aula: quem acertou? O que descobrimos que não esperávamos? Esse momento de fechamento é onde a explicação científica entra — mas agora ela faz sentido, porque responde a uma pergunta que a própria turma levantou.
Ideias práticas de experimentos por unidade temática
Matéria e Energia
Derretimento do gelo em diferentes superfícies (sol, sombra, dentro de um copo) — comparar o tempo que leva em cada lugar.
Mistura de água com óleo, água com sal e água com areia — discutir o que se dissolve e o que não se dissolve.
Construção de um barquinho de papel alumínio para testar quanto peso ele aguenta flutuando.
Vida e Evolução
Germinação de feijão em potinho com algodão úmido, observando e registrando o crescimento dia a dia.
Caça aos "bichinhos" do quintal ou da praça (formigas, minhocas, joaninhas) com lupa, seguida de desenho e conversa sobre onde cada um vive.
Roda de conversa com espelho sobre as partes do corpo e os cinco sentidos, testando cada sentido com atividades simples (identificar cheiros de olhos fechados, texturas ao toque).
Terra e Universo
Observação da sombra de um objeto fixo (um poste, uma árvore) em diferentes horários do dia, registrando como ela muda de tamanho e posição.
Construção de um "relógio de sol" simples com um lápis fincado em um vaso com terra.
Diário do tempo: durante uma semana, a turma registra se o dia estava ensolarado, nublado ou chuvoso, e ao final monta um gráfico coletivo.
Dicas rápidas para o dia a dia
Erre com a turma. Se um experimento não sair como o esperado, isso também é ciência — investigar por que não funcionou é tão valioso quanto confirmar a hipótese certa.
Valorize o vocabulário aos poucos. Não é preciso começar com termos técnicos; deixe que a criança descreva com suas próprias palavras primeiro, e só depois apresente o nome científico.
Aproveite o que já existe na escola e no bairro. Uma horta, um pátio com árvores ou até uma poça d'água depois da chuva já são ótimos disparadores de investigação.
Combine registro escrito e oral. Nem toda criança está alfabetizada da mesma forma nos Anos Iniciais — desenhos, falas gravadas e rodas de conversa são registros tão válidos quanto o texto escrito.
Conecte com outras áreas. Um experimento sobre plantas pode render um texto em Língua Portuguesa, uma medição em Matemática ou uma pintura em Arte.
Fontes:
Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — Área de Ciências da Natureza no Ensino Fundamental: alex.pro.br
Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — documento integral, Ministério da Educação: basenacionalcomum.mec.gov.br
Nova Escola — O que prevê a BNCC para o ensino de Ciências?: novaescola.org.br
Geekie Educação — BNCC: o que muda no ensino de Ciências?: geekie.com.br
Blog Sistema Etapa — Disciplina de Ciências de acordo com a BNCC: blog.sistemaetapa.com.br
Testou algum desses experimentos com a sua turma? Conta pra gente nos comentários como foi!
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